A novelista Gloria Perez, criadora de sucessos como O Clone, América e Caminho das Índias, criticou duramente o que considera uma nova forma de censura nas novelas brasileiras. Para ela, o excesso de preocupação em não desagradar grupos específicos tornou a “censura moral” pior que nos tempos da ditadura militar. Foi em um entrevista à Folha de SP.
“Hoje em dia, com essa coisa de não poder ofender um grupo, não poder ofender outro, você acaba fazendo uma novela sem conflito”, disse, ressaltando que o conflito é a espinha dorsal do gênero.
Perez também rebateu críticas de que teria retratado culturas de forma estereotipada em tramas como Salve Jorge. “Quem foi ao Marrocos, à Índia, à Capadócia viu de perto o quanto a população dos locais gostou desses retratos”, afirmou.
A autora revelou que deixou a TV Globo após seu projeto Rosa dos Ventos ser vetado pela direção, que alegou teor político e temas polêmicos como o aborto. Ela também criticou o resultado de Travessia, exibida antes de sua saída: “Detestei não ver no ar aquilo que eu escrevi”.
Comparando o momento atual com a censura da ditadura, Perez citou a antiga censora Solange Hernandes: “Agora nós temos uma multiplicidade de Solanges. Nas redes, com raras exceções, cada pessoa é uma Solange diferente. Antes, você tinha uma censura. Agora, a censura está espalhada na sociedade. É muito pior”. Veja trechos abaixo da entrevista publicada pela Folha.
A senhora entrou na Globo em 1979, num momento em que a censura da ditadura ainda era uma realidade. Como compara a vigilância moral naquele período com a atual?
Na época, você tinha uma censura comandada pela dona Solange [Hernandes, chefe da Divisão de Censura de Diversões Públicas do regime militar]. Era ela quem mandava cortar as coisas. Só que agora nós temos uma multiplicidade enorme de “Solanges”. Nas redes sociais, com raras exceções, cada pessoa é uma Solange diferente, julgando o outro e tentando cassar a palavra alheia. Não era assim. Antes, você tinha uma censura. Agora, a censura está espalhada na sociedade. É muito pior.
Críticos de TV afirmam que as novelas passam por dificuldades não só de audiência, mas também de criatividade. A teledramaturgia nacional está em crise?
Sem dúvidas. As novelas não estão tendo a relevância de antes nem como entretenimento nem como porta-voz de temas importantes. A explicação disso não se resume à multiplicação das telas e das opções do público. A cultura “woke” introduziu um cerceamento à imaginação. A opção de não desagradar, de não tocar em temas sensíveis, de transformar conflitos humanos em pautas, acabou por encerrar a dramaturgia numa espécie de fórmula, retirando dela a capacidade de provocar. A cultura “woke” foi arrasadora para a dramaturgia. (Foto: divulgação)
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