As ilhas oceânicas brasileiras ocupam posição de destaque entre os ecossistemas mais relevantes do planeta quando o assunto é biodiversidade marinha.
A conclusão vem de um estudo publicado na revista científica Peer Community Journal, que analisou 7 mil espécies de peixes recifais distribuídas em 87 mil ilhas e arquipélagos ao redor do mundo.
Os resultados revelam que locais como Fernando de Noronha, Trindade e o Arquipélago de São Pedro e São Paulo estão entre os principais centros de endemismo marinho, ou seja, regiões que abrigam espécies exclusivas e que não existem em nenhum outro lugar.
O estudo também propôs um novo conceito, o “endemismo insular-provincial”, para designar espécies que vivem em vários arquipélagos dentro de uma mesma região biogeográfica, mas não ocorrem em áreas continentais. Cerca de 40% das espécies endêmicas catalogadas se encaixam nessa definição.
Entre os exemplos citados estão os peixes Choranthias salmopunctatus e Prognathodes obliquus, encontrados exclusivamente no Arquipélago de São Pedro e São Paulo, a 1.100 km de Natal (RN).
Nessas ilhas, a biodiversidade marinha se concentra em recifes rochosos, e algumas espécies se repetem em Fernando de Noronha e no Atol das Rocas (PE). Outras, como o Malacoctenus lianae e o Tosanoides aphrodite, são exemplos clássicos de espécies com distribuição restrita a mais de um arquipélago da mesma província biogeográfica.
Os cientistas alertam que essa concentração de espécies em áreas pequenas aumenta a vulnerabilidade à extinção. “Ignorar essas espécies pode levar a interpretações erradas sobre a formação da biodiversidade e sobre quais áreas são mais vulneráveis aos impactos humanos, incluindo as mudanças climáticas”, observou o pesquisador Juan Quimbayo, um dos autores do trabalho. Estima-se que 12% de todos os peixes recifais endêmicos do planeta vivam em ilhas — o que reforça a urgência de ampliar as estratégias de proteção.
O estudo também aponta conexões genéticas inesperadas entre ilhas distantes, como Santa Helena e Ascensão, no Atlântico, e Galápagos e Rapa Nui, no Pacífico.
“Algumas espécies endêmicas de Fernando de Noronha, por exemplo, ocorrem também no Atol das Rocas ou em São Pedro e São Paulo. São ilhas relativamente próximas, mas que mantêm isolamento suficiente para gerar espécies próprias”, explicou Pinheiro.
Para chegar aos resultados, a equipe realizou expedições em recifes mesofóticos, localizados entre 60 e 150 metros de profundidade, utilizando mergulhos científicos de alta precisão. O CEBIMar, da USP, abriga hoje a primeira estação de mergulho científico mesofótico da América Latina, o que tem permitido coletas inéditas de dados sobre biodiversidade marinha profunda no Brasil. (Fonte e foto: Revista Galileu)

