O comandante da Marinha, almirante de esquadra Marcos Sampaio Olsen, afirmou que as Forças Armadas enfrentam dificuldades para atrair e manter profissionais, apontando a baixa remuneração e a evasão de militares como alguns dos principais desafios da carreira. As declarações foram dadas em entrevista ao diretor editorial da CNN em Brasília, Daniel Rittner.
Durante a conversa, Olsen foi questionado sobre a possibilidade de as Forças Armadas apoiarem uma reforma da previdência militar como forma de contribuir para o ajuste das contas públicas, medida defendida em diferentes ocasiões pelo Tribunal de Contas da União (TCU).
Sem responder diretamente se é favorável ou contrário à proposta, o comandante afirmou que o debate não pode se limitar às regras previdenciárias e deve considerar as características específicas da carreira militar.
“Hoje a Força se ressente da captação e permanência de pessoal. Isso demonstra baixa atratividade da carreira militar. Se é o aspecto geracional, o mercado… Mas o fato é que hoje as Forças têm dificuldade de recrutar pessoal. E nós temos observado a evasão de pessoal. Oficiais e praças particularmente nos postos iniciais da carreira e naquelas habilitações técnicas. Me preocupa no aspecto de atratividade pra carreira”, declarou.
Olsen também afirmou que eventuais mudanças no sistema de proteção social dos militares deveriam ser acompanhadas de mecanismos que compensassem direitos inexistentes na carreira, como pagamento de horas extras, adicional noturno e periculosidade.
“Se vai se discutir o sistema de previdência ou o sistema de proteção social dos militares, que procura compensar determinadas peculiaridades que a carreira militar tem, como é que nós vamos compensar um marinheiro embarcado por 3 meses? Adicional noturno? Hora extra? Periculosidade? Contribuição patronal? A idade é uma variável estranha”, questionou.
Ao abordar a remuneração, o comandante comparou os vencimentos dos militares aos de outras carreiras de Estado e afirmou que os salários iniciais são significativamente menores.
“Se tomarmos as carreiras de Estado, hoje um Oficial em um posto inicial recebe 50% de uma carreira de Estado dessas estruturadas, não dos servidores públicos de uma maneira geral, e leva 35 anos pra atingir, e nem todos atingem, o nível máximo da carreira. Outras carreiras com 10 anos já se atingiu. Isso não permite ao militar acumulação de patrimônio”, afirmou.
Segundo Olsen, essas condições precisam ser levadas em conta em qualquer discussão sobre alterações nas regras previdenciárias. Ele lembrou que os militares já passaram por mudanças em 2001 e novamente em 2019, quando houve a reestruturação da carreira.
“É uma questão latente. Pelo menos recentemente nós tivemos em 2001 uma reforma que adaptou alguns dos direitos. Em 2019, com a reestruturação da carreira, também houve uma adequação”, disse.
Ao final da entrevista, o comandante foi questionado se considera que os militares estão sendo transformados em “bodes expiatórios” no debate sobre o equilíbrio das contas públicas. Olsen negou essa interpretação, mas voltou a defender uma análise mais ampla sobre o tema.
“Não. Não vejo dessa maneira. Vejo uma percepção que o enfoque é um, em termos de gasto, mas como é que vou assegurar aos militares uma condição digna e ter atratividade pra carreira? É uma equação que precisa ser considerada”, concluiu. (Foto: EBC; Fonte: revista Sociedade Militar)
