O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) divulgou nessa quinta-feira (23), em Brasília, o relatório final sobre o acidente com o avião da Voepass que caiu em Vinhedo (SP), em 9 de agosto de 2024, deixando 62 mortos. A conclusão da investigação aponta que a tragédia foi resultado de uma sequência de falhas operacionais, deficiências na supervisão da empresa e fragilidades no ambiente regulatório, descartando a hipótese de um único fator determinante.
Antes da divulgação pública, as conclusões foram apresentadas em uma reunião reservada com familiares das vítimas. Em seguida, os detalhes foram expostos à imprensa pelo chefe do Cenipa, brigadeiro Alexandre Avellar Leal, pelo tenente-coronel aviador Paulo Mendes Fróes e pelo coronel Raphael Vargas Vilar, responsável pela Divisão de Investigação e Prevenção (DIP).
Segundo o relatório, a companhia aérea e os mecanismos de fiscalização deixaram de identificar e corrigir sinais importantes de risco. O Cenipa afirma que os sistemas de monitoramento existentes eram insuficientes para evitar a ocorrência do acidente.
Entre os principais fatores identificados está um problema relacionado ao sistema de proteção contra formação de gelo na aeronave, conhecido como *airframe icing*. A investigação também apontou indícios de que procedimentos obrigatórios de verificação antes do voo podem não ter sido realizados.
Durante a apresentação, Paulo Fróes destacou que “Não houve registro da tripulação desse problema do “airframe icing” um dia antes do acidente, quando o avião havia realizado outro voo”.
Conforme explicou, a falha também não foi anotada no diário de bordo e o sistema de alerta destinado a registrar esse tipo de ocorrência não foi acionado. Nos dias anteriores ao acidente, três equipes diferentes operaram a aeronave, mas nenhuma comunicou irregularidades relacionadas ao sistema.
O documento ainda descreve uma deficiência na cultura organizacional da empresa, indicando que falhas operacionais e descumprimentos de procedimentos deixavam de ser comunicados pelos funcionários.
A investigação também identificou práticas consideradas inadequadas na manutenção da frota. Segundo o Cenipa, componentes eram transferidos entre aeronaves quando surgiam defeitos, enquanto pilotos e mecânicos, em alguns casos, deixavam de registrar panes para permitir que os aviões permanecessem em operação.
Outro ponto citado foi a existência de um defeito no limpador de para-brisa da aeronave, condição que, de acordo com os investigadores, impediria sua liberação para voar. O relatório acrescenta que os pilotos tinham conhecimento das condições meteorológicas adversas na rota entre Cascavel (PR) e Guarulhos (SP), incluindo a possibilidade de formação intensa de gelo e dificuldades no funcionamento do sistema antigelo.
Durante o voo, os investigadores verificaram que diversos alertas sobre formação de gelo surgiram de maneira repetida. Ainda assim, a reação da tripulação não ocorreu de forma imediata e consistente. O relatório indica que o sistema antigelo da asa direita apresentava funcionamento irregular ou não foi administrado adequadamente durante a operação.
Os alertas ocorreram enquanto os pilotos conversavam sobre outros assuntos, situação que, segundo o Cenipa, demonstra perda de atenção operacional. A investigação concluiu que a elevada carga de trabalho, aliada ao excesso de estímulos e à cultura organizacional existente, contribuiu para um quadro descrito como “surdez e “cegueira” por desatenção.
Para chegar às conclusões, os investigadores realizaram perícias técnicas, reconstruíram o voo e analisaram os dados das caixas-pretas, os motores, os sistemas de degelo e proteção contra estol, além das condições meteorológicas e de entrevistas com pessoas ligadas à operação.
O Cenipa reforçou que sua investigação tem caráter exclusivamente preventivo e não busca identificar culpados ou definir responsabilidades civis e criminais. Procurada, a Voepass informou que só irá se manifestar após ter acesso à íntegra do relatório final.
Enquanto isso, a Polícia Federal mantém uma investigação paralela para apurar eventual responsabilidade criminal. O inquérito está em fase de conclusão e poderá utilizar as conclusões técnicas do Cenipa para fundamentar possíveis indiciamentos antes do envio do caso ao Ministério Público Federal.
No fim de junho, os familiares das vítimas tiveram acesso à transcrição das conversas registradas na cabine de comando. O material integra o laudo elaborado pelo Instituto Nacional de Criminalística (INC) e pode esclarecer os momentos finais do voo, incluindo o funcionamento do sistema de degelo.
Além da esfera criminal, os familiares também pretendem ingressar com uma ação coletiva por danos morais após a conclusão das investigações. Segundo o advogado Leonardo Amarante, a iniciativa será voltada à responsabilização civil de empresas e pessoas que eventualmente tenham contribuído para o acidente, sem substituir os processos individuais já em andamento.
O avião envolvido no acidente era um ATR 72-500, matrícula PS-VPB, que operava o voo 2283 entre Cascavel (PR) e o Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP). A aeronave caiu sobre o quintal de uma residência em um condomínio de Vinhedo, provocando a morte de todos os 58 passageiros e quatro tripulantes. Nenhum morador da casa atingida ficou ferido.
O desastre foi o mais grave da aviação comercial brasileira desde o acidente com o voo 3054 da TAM, ocorrido em 2007. (Foto: divulgação; Fonte: UOL)

