A Gerdau decidiu cortar os investimentos no Brasil a partir do próximo ano, conforme declarou na última sexta-feira (1º) o CEO da companhia, Gustavo Werneck. A medida é reflexo da insatisfação com a atuação do governo federal, que, segundo ele, não adotou políticas comerciais suficientemente robustas para conter a entrada de aço estrangeiro no país.
Durante uma coletiva com jornalistas e analistas, após a divulgação dos resultados financeiros do segundo trimestre, Werneck revelou que a empresa já desligou 1.500 funcionários em território nacional neste ano. Ele atribui os cortes à concorrência desleal com o aço importado, muitas vezes disfarçado em produtos acabados.
“A decisão está tomada”, declarou o executivo. “É muito decepcionante depois de 12 meses… não vermos medidas mais duras sendo tomadas pelo MDIC”, disse, em referência ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
Werneck tem se posicionado com firmeza em relação ao que considera uma política comercial ineficaz. O modelo adotado pelo Brasil em 2023 — baseado em cotas e tarifas — foi, na avaliação do setor, incapaz de conter o avanço do aço chinês no mercado nacional.
“Isso mostra um racional de deixar todo mundo feliz e a gente entende que isso não pode ser assim. O governo federal abre mão de R$ 6 bilhões em impostos do setor de aço por aceitar a penetração de importações”, criticou.
Apesar de manter os aportes previstos para este ano, entre R$ 5 bilhões e R$ 6 bilhões, a companhia avalia uma nova estratégia de investimentos, que será definida entre agosto e setembro e anunciada oficialmente em outubro, durante reunião com investidores. Segundo o CFO Rafael Japur, dos R$ 6 bilhões programados para 2025, R$ 4 bilhões seriam destinados ao Brasil.
Em contraste com o cenário doméstico, a Gerdau decidiu seguir com os investimentos planejados nos Estados Unidos, onde se beneficia de políticas de reindustrialização e incentivos públicos. No entanto, Werneck ponderou que a empresa está agindo com cautela. “Estamos muito cuidadosos com o que fazemos lá para não atrapalhar o que está bom”, afirmou.
No segundo trimestre, as operações norte-americanas responderam por 61,4% do Ebitda ajustado da Gerdau, indicando o peso crescente do mercado dos EUA na performance da companhia.
Em relação ao retorno aos acionistas, Japur explicou que a preferência da empresa continua sendo pela recompra de ações, em vez do pagamento de dividendos extraordinários. No início deste ano, a Gerdau aprovou um novo programa de recompra envolvendo até 5% das ações preferenciais e 10% das ordinárias. “Excelente opção é recomprar ações da companhia”, afirmou o diretor. (Foto: site oficial; Fonte: CNN)
Gerdau
A Gerdau é a maior produtora brasileira de aço e figura entre os principais fornecedores de aços longos nas Américas e de aços especiais em escala global. Com forte atuação no setor de reciclagem, a empresa é a maior recicladora da América Latina, utilizando a sucata como principal matéria-prima — cerca de 73% do aço fabricado tem origem nesse material. Anualmente, mais de 11 milhões de toneladas de sucata são transformadas em produtos siderúrgicos.
As ações da Gerdau são negociadas nas bolsas de valores de São Paulo (B3), Nova York (NYSE) e Madri (Latibex). No Brasil, além dos aços longos, a companhia também produz aços planos e extrai minério de ferro para uso próprio. Presente em 10 países, a Gerdau emprega mais de 30 mil pessoas, entre colaboradores diretos e indiretos.
A estrutura societária do grupo é composta por duas holdings: a Metalúrgica Gerdau, que controla a Gerdau S.A., e esta, por sua vez, é responsável pelas operações siderúrgicas do conglomerado.
A história da Gerdau teve início com João Gerdau, nascido em Altona — hoje um bairro de Hamburgo, na antiga Prússia. Em 1869, ele imigrou para o sul do Império do Brasil em busca de novas oportunidades.
Estabeleceu-se inicialmente na Colônia de Santo Ângelo, atual município de Agudo (RS), onde atuou no comércio. Em 1884, abriu uma casa de secos e molhados em Cachoeira do Sul. Posteriormente, mudou-se com a esposa, Alvine, e os três filhos — Hugo, Walter e Bertha — para Porto Alegre.
Na capital gaúcha, João adquiriu, em 1901, a fábrica de pregos Pontas de Paris, marco inaugural do que viria a se tornar o Grupo Gerdau. Após sua morte, em 24 de novembro de 1917, o negócio passou a ser administrado pelo filho, Hugo Gerdau.
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