The New York Times: Tarifa contra o Brasil foi decisão pessoal de Trump para punir Lula

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Uma das mais graves crises diplomáticas entre o Brasil e os Estados Unidos nos últimos anos teve origem em uma decisão pessoal e estratégica do presidente americano Donald Trump.

Segundo revelou o The New York Times, a tarifa de 50% sobre todas as importações brasileiras, anunciada para entrar em vigor no dia 1º de agosto, foi uma ação direta de Trump para punir o governo de Luiz Inácio Lula da Silva e proteger Jair Bolsonaro e sua família de investigações conduzidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

A reportagem, publicada nesta semana com base em apurações exclusivas e fontes próximas ao círculo de Trump, afirma que a medida não foi sugerida por nenhuma autoridade econômica ou diplomática, mas partiu diretamente do presidente, após meses de atuação de Eduardo Bolsonaro em Washington.

“Desde março, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro tem circulado pelos corredores da Casa Branca”, revelou o jornal, em referência a Eduardo Bolsonaro (PL-SP), deputado federal e principal articulador nos EUA.

“Seu trabalho mais recente tem sido convencer autoridades americanas de que um perigoso ministro da Suprema Corte brasileira quer jogar ele e seu pai na prisão apenas por lutarem contra o que alegam ter sido uma eleição fraudada.”

O New York Times detalha que Eduardo Bolsonaro intensificou sua atuação nos bastidores do governo americano desde o início do ano. Ele tem mantido contato com membros do Congresso, advogados conservadores, dirigentes da plataforma de vídeos Rumble (banida no Brasil) e membros do gabinete de Trump.

“Trump decidiu partir para o ataque com força total. Isso diz muito sobre ele, não é mesmo?”, afirmou Eduardo à reportagem. “É a mesma caça às bruxas que ele também enfrentou nos Estados Unidos, e isso gera muita empatia.”

O jornal lembra ainda que Eduardo já tinha relações estreitas com o universo trumpista: aprendeu inglês, esteve em Washington na véspera da invasão ao Capitólio em 2021, e foi presença constante em Mar-a-Lago, inclusive na noite da apuração eleitoral de 2024.

Inicialmente, Eduardo Bolsonaro articulava para que os Estados Unidos aplicassem sanções diretas ao ministro Alexandre de Moraes, relator das ações contra Jair Bolsonaro. Mas, segundo o Times, Trump decidiu ir além — e sozinho.

“A decisão de ampliar a punição, passando de sanções a um único juiz para ameaçar toda uma nação de 200 milhões de pessoas com tarifas pesadas, foi tomada exclusivamente por Trump”, disse o jornal, citando duas fontes próximas à reunião em que a medida foi definida.

A estratégia, segundo o jornal, escancara uma nova fase do trumpismo, em que tarifas econômicas são usadas como forma de represália política, ignorando impactos comerciais ou discussões legais.

O ex-estrategista de Trump, Steve Bannon, endossou a manobra e afirmou em entrevista ao NYT que a pressão econômica visa forçar o recuo do STF brasileiro. Para ele, a solução é clara:

“Se vocês abandonarem o julgamento e retirarem as acusações, as tarifas desaparecem.” Questionado se isso não se assemelhava a extorsão, Bannon respondeu: “É MAGA, baby. É um novo mundo corajoso.”

A reportagem também destaca a rápida e dura reação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que acusou Trump de interferência inaceitável nos assuntos internos do Brasil. Em pronunciamento oficial, Lula afirmou: “O Brasil é uma nação soberana, com instituições independentes, e não aceitará nenhum tipo de tutela.”

Lula também comparou a atitude de Trump a episódios históricos de intervenção americana na América Latina, e declarou que buscará apoio da Organização Mundial do Comércio (OMC) para barrar as tarifas, que considera abusivas.

“As tarifas de Trump representam a interferência de um país na soberania de outro. E, mais grave ainda, a interferência de um presidente estrangeiro no Judiciário do meu país”, disse o presidente à televisão brasileira.

Apesar da retórica firme, o New York Times relata que o governo Lula tem evitado uma retaliação ampla, com receio de prejudicar setores estratégicos da economia brasileira. Segundo um alto funcionário ouvido pelo jornal, o Brasil estuda impor tarifas específicas a determinados produtos norte-americanos, mas ainda evita uma guerra comercial em larga escala.

A reportagem explica que os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas da China, e o principal comprador de aço e café brasileiros. Em 2024, as exportações brasileiras para os EUA chegaram a um recorde de US$ 40,3 bilhões, cerca de 15% de tudo o que o país vendeu ao exterior.

Trump impôs as tarifas justamente no momento em que Bolsonaro deve enfrentar julgamento por suposta tentativa de golpe de Estado e planejamento de um atentado contra Lula, Moraes e o vice-presidente Geraldo Alckmin — acusações negadas por Bolsonaro, mas que estão em fase avançada de apuração.

“A medida de Trump chega num momento explosivo: a poucos meses do julgamento de Jair Bolsonaro”, destacou o Times. “O uso da economia para interferir no Judiciário de outro país é uma das maiores tensões diplomáticas entre os dois países em décadas.”

Por fim, o NYT aponta que a crise pode beneficiar politicamente Lula. Com aprovação em queda e enfrentando dificuldades na economia, o presidente brasileiro agora pode atribuir a um “inimigo externo” os impactos econômicos negativos causados pelas tarifas, reforçando sua narrativa de resistência contra o bolsonarismo e o trumpismo internacional.

“Lula deve estar mais feliz do que nunca”, avaliou o analista Thomas Traumann. “Agora ele tem um inimigo externo para culpar por qualquer revés econômico, e pode colocar Trump e Bolsonaro no mesmo pacote.”.

E mais:

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