Em um dos episódios mais inusitados da política externa brasileira no século XX, o governo do Brasil chegou a elaborar um plano militar para invadir e anexar a Guiana Francesa em 1961. O país, oficialmente, faz parte da França, país do continente europeu.
A operação, batizada de “Cabralzinho”, fazia parte do contexto de tensão conhecido como Guerra da Lagosta e acabou nunca sendo executada.
O nome da ação fazia referência ao general Francisco Xavier da Veiga Cabral, figura histórica ligada à expulsão de tropas francesas do território do Amapá em 1895, durante a chamada Intrusão Francesa na região.
A ideia da operação começou a ganhar forma em 3 de agosto de 1961, quando o então presidente Jânio Quadros se reuniu de forma reservada com o governador do Amapá, Moura Cavalcanti. O encontro tinha como objetivo inicial discutir a exploração clandestina de manganês em território brasileiro.
Segundo registros históricos, chegou-se à conclusão de que parte desse minério estaria sendo desviada para a Guiana Francesa e, de lá, exportada para a Europa, o que estaria causando prejuízos econômicos ao Brasil. Nesse contexto, Jânio Quadros teria sugerido uma resposta extrema: a ocupação militar do território francês na América do Sul.
O plano, segundo relatos, previa uma ação conjunta das Forças Armadas brasileiras — Exército, Marinha e Força Aérea — em uma ofensiva relâmpago. A estratégia incluía o deslocamento de cerca de 2.500 militares do Exército, organizados em cinco brigadas, responsáveis por abrir rotas clandestinas a partir do território brasileiro em direção ao interior da Guiana Francesa.
O objetivo final seria alcançar Caiena, capital do território, com apoio naval de fragatas e corvetas, além de suporte aéreo. A operação também contava com a possibilidade de avanço gradual e consolidação da ocupação militar.
Pouco tempo após a reunião, ordens teriam sido encaminhadas ao Estado-Maior das Forças Armadas para início da preparação das tropas. Em seguida, unidades militares começaram a se mobilizar para a possível ação.
No entanto, o plano foi interrompido antes de qualquer execução. Em 25 de agosto de 1961, Jânio Quadros renunciou à Presidência da República, encerrando abruptamente a articulação política que sustentava a operação. Com isso, a invasão foi oficialmente cancelada.
Especialistas e historiadores divergem sobre o desfecho hipotético do plano. Alguns avaliam que o Brasil poderia ter vantagem estratégica, já que a França concentrava parte significativa de suas forças militares na Argélia, em meio à Guerra de Independência Argelina.
Outros, porém, consideram que a operação teria alto risco de fracasso, devido ao caráter improvisado do planejamento e à falta de estudos militares mais aprofundados.
O episódio permanece como um dos casos mais curiosos da diplomacia e da estratégia militar brasileira, revelando um momento de forte tensão política e ambição geopolítica na América do Sul durante o início da década de 1960.

