Enfrentando uma das maiores crises do seu sistema de saúde, a Itália intensificou o recrutamento de profissionais estrangeiros — entre eles, muitos brasileiros. Estima-se que faltem mais de 65 mil trabalhadores da área da saúde, incluindo médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem.
As ofertas são atraentes: salários que podem chegar a €7 mil por mês (cerca de R$ 44,6 mil), além de benefícios como passagem aérea, moradia subsidiada e cursos de idioma. A demanda não se restringe a hospitais e clínicas: há vagas em geriatria, casas de repouso, centros comunitários e projetos humanitários.
Segundo Talita Dal Lago Fermanian, presidente da Câmara de Comércio Itália-Brasil, a parceria entre os dois países pode ser estratégica. “O Brasil tem profissionais talentosos e a Itália tem necessidade urgente. O desafio é apenas ligar os dois lados da ponte”, disse em entrevista à imprensa.
O papel do Decreto Milleproroghe
O movimento ganhou força com o chamado Decreto Milleproroghe, aprovado recentemente em Roma, que flexibilizou a validação de diplomas estrangeiros.
O Decreto Milleproroghe é um decreto-lei típico da política italiana, editado todos os anos, geralmente no fim ou início do ano. O nome vem de “mil prorrogações” porque o decreto reúne uma série de medidas emergenciais, renovações de prazos e flexibilizações em diversas áreas — desde economia e justiça até saúde, transporte e educação.
No caso da saúde, o Milleproroghe de 2023/2024 trouxe uma novidade importante: ele permitiu o reconhecimento temporário de diplomas estrangeiros na área médica e de enfermagem, possibilitando que profissionais internacionais trabalhem imediatamente na Itália enquanto aguardam a validação definitiva dos seus títulos.
Apesar da abertura, o processo ainda exige uma série de etapas burocráticas:
Documentação: diploma e histórico devem ser traduzidos para o italiano por tradutor juramentado, acompanhados da Apostila de Haia e da Declaração de Valor;
Idioma: o domínio do italiano é indispensável; alguns hospitais oferecem cursos, mas a recomendação é iniciar os estudos previamente;
Vagas: oportunidades aparecem em editais regionais e portais de emprego, com termos como ospedale (hospital), medico (médico) e infermiere (enfermeiro);
Visto de trabalho: solicitado no consulado italiano após proposta formal;
Residência: já na Itália, o profissional deve requerer o permesso di soggiorno (autorização de residência);
Registro profissional: médicos precisam se inscrever no Ordine dei Medici e enfermeiros no Ordine degli Infermieri.
Perspectivas e desafios
O governo italiano anunciou que pretende emitir quase 500 mil vistos de trabalho até 2028, em resposta ao envelhecimento populacional e à falta de mão de obra. Para descendentes de italianos, há ainda um atrativo extra: após dois anos de trabalho, é possível solicitar a cidadania.
No entanto, os números mostram que nem tudo é simples. Em 2023, dos 130 mil vistos abertos, pouco mais da metade foi de fato autorizada, resultando em apenas 13% de contratos assinados e 7,5% de residências regularizadas. Em 2024, a situação pouco mudou, e muitos profissionais continuam enfrentando vínculos temporários e instabilidade.
Ainda assim, a abertura do mercado italiano representa uma oportunidade única para profissionais da saúde brasileiros interessados em atuar na Europa, com salários competitivos, experiência internacional e possibilidade de construir carreira em um dos países mais afetados pelo chamado “inverno demográfico”, caracterizado pelo declínio populacional. (Foto: reprodução; Fontes: Metrópoles; Italianismo)

