O editorial publicado nesta segunda-feira (29) pelo jornal O Estado de S. Paulo trouxe uma avaliação dura contra Jair Bolsonaro, seu grupo político e aliados mais próximos.
O texto descreve um cenário de “derrotas sucessivas” e fala em um bolsonarismo supostamente enfraquecido e isolado, mesmo diante de inúmeras manifestações lotadas como se viu durante este ano, em diversas capitais.
Logo no início, o editorial do Estadão afirma: “a sucessão de derrotas políticas deixou o bolsonarismo ainda mais enfraquecido e isolado. (…) nada disso esconde o essencial, isto é, está-se diante de uma espiral descendente que atormenta o bolsonarismo. E quando este perde, é o Brasil que ganha”.
O tom celebratório do texto chama atenção, indo além de uma análise dos fatos políticos recentes. É praticamente uma defesa do governo Lula.
Entre os episódios citados, o jornal destacou a repercussão internacional após a fala do presidente Donald Trump na Assembleia-Geral da ONU.
Conforme a reportagem, “Trump não só mencionou o demiurgo petista de forma positiva (…) como anunciou um encontro entre os dois e nem sequer citou o nome de Jair Bolsonaro”.
Segundo o Estadão, esse gesto representaria a abertura de um “canal de diálogo” entre Trump e Lula, algo visto como impensável até pouco tempo.
O veículo, porém, não cita que desde a aplicação de tarifas contra o Brasil, Lula sequer tomou a iniciativa de telefonar para Trump, sempre justificando que não seria do interesse do americano em dialogar, teoria que desmoronou na recente fala do americano.
Ou seja, empresas brasileiras estão promovendo demissão de milhares de trabalhadores, sendo que este diálogo já poderia ter acontecido.
O jornal também tratou dos protestos recentes no país. “As mais recentes manifestações de rua, por exemplo, mostraram o tamanho da insatisfação dos brasileiros contra a blindagem de parlamentares ante investigações criminais e a concessão de anistia ‘ampla, geral e irrestrita’ a Jair Bolsonaro e outros golpistas condenados pelo Supremo Tribunal Federal (STF)”, escreveu.
Para o veículo, os atos mostraram que Bolsonaro já não controla as ruas como no passado. Mas faltou dizer que as manifestações, que tiveram uma bom número de pessoas, inegavelmente, também se transformaram em um festival de música, o que, também inegavelmente, colabora para uma maior presença de público. E mais: com exceção desta última manifestação, qual foi o ‘grande ato’ esquerdista desde o início do governo Lula? Se o bolsonarismo está ‘isolado’, como sugere o veículo, para que lado se debandaram os antigos apoiadores de direita?
Além disso, a reportagem elencou problemas recentes enfrentados por Eduardo Bolsonaro. Segundo o Estadão, a Procuradoria-Geral da República denunciou o deputado por ‘coação em processo relacionado’ à suposta trama golpista; a Câmara rejeitou pedido de seu partido para protegê-lo de faltas às sessões; e o Conselho de Ética instaurou processo pedindo sua cassação.
“Partidos do Centrão vêm fazendo acenos a uma candidatura à Presidência que não leve o sobrenome Bolsonaro”, destacou ainda o texto, o que não surpreende ninguém, há de se convir.
EDITORIAL: O Brasil ganha quando o bolsonarismo perde – Considerando a direção e o ritmo dos ventos, o País pode começar a vislumbrar como real a chance de se ver livre dessa força política reacionária e destrutiva (via @opiniao_estadao) > https://t.co/gl4qeJZxHZ pic.twitter.com/xKalIdKmwp
— Estadão ?️ (@Estadao) September 29, 2025
O editorial não poupou críticas ao passado recente do ex-presidente. “Trabalhou para minar a Justiça Eleitoral, sucumbiu à velha política, atacou a democracia, tentou dar o golpe e foi vencido”, escreveu o jornal, alegandoque hoje o movimento bolsonarista estaria restrito apenas a uma bandeira: livrar Jair Bolsonaro de condenações e da prisão.
Por partes: sim, a anistia, ampla, geral e irrestrita, é uma bandeira da direita, tanto aos acusados da suposta trama golpista (por motivos óbivos), mas também aos presos do 8 de Janeiro; pessoas comuns, simples, trabalhadores, pais e mães de família, avôs e avós, que tomaram 17 anos de cadeia por acusação de ‘golpe de estado’.
Além disso, a direita brasileira é o único setor da sociedade que ainda faz oposição saidável (não destrutiva, como a esquerda) ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva, que conta com apoio de uma grande bancada no Congresso, de sindicatos, universidade, judiciário, big techs e, principalmente, da imprensa, que deveria cumprir seu papel fiscalizador, mas virou fiadora de praticamente todas as medidas petistas; de aumento de imposto a aumente de gasto; de centralização da segurança pública a aumento do assistencialismo.
Apesar de reconhecer que política é “como nuvem” e pode mudar rapidamente, o Estadão concluiu em tom de otimismo (para o próprio jornal): “considerando a atual direção e ritmo dos ventos, o Brasil pode começar a vislumbrar como real a chance de se ver livre dessa força política reacionária e destrutiva”.
Ou seja, o Estadão acredita que o Brasil estaria ‘melhor’ sem o bolsonarismo. Mas oras, o governo é petista. Praticamente todas as medidas apresentadas pelo governo Lula foram aprovadas, seja no Congresso ou pelo STF; os supostos ‘golpistas’ estão sendo condenados. Qual a culpa da direita bolsonarista na atual situação do Brasil?
A taxa Selic nas nuvens é reflexo de inflação alta, cuja responsabilidade é de um governo gastador. O PIB da sinais de que o ‘motor da economia está falhando’ por falta de medidas estruturantes (a mesma coisa dos mandatos anteriores de Lula e Dilma). Não é com ‘Pé-de-Meia’, gás de graça, luz de graça que o Brasil vai avançar. Nada disso foi herança do ‘bolsonarismo’, mas o caminho escolhido pelo governo atual, apoiado pela imprensa.
Embora a reportagem traga fatos políticos recentes — como os protestos, os movimentos do Congresso e as ações do Judiciário —, o texto publicado pelo jornal assume uma posição editorial clara contra Bolsonaro e seus aliados, misturando análise com uma narrativa de celebração do enfraquecimento do bolsonarismo.

