Depois de quase 30 anos no comando do Jornal Nacional, William Bonner apresentou sua última edição nesta sexta-feira (31). A partir de segunda-feira (3), César Tralli assume a bancada do principal telejornal do país. Em entrevista ao O Globo, Bonner, de 61 anos, fez uma avaliação sobre sua trajetória e deixou um conselho ao sucessor.
O apresentador afirmou que, no Jornal Nacional, dedicação é a palavra-chave. “[A sugestão] É muito simples: entregue-se. Porque o JN e a nossa profissão são muito absorventes. E o Tralli é um exemplo de alguém cuja entrega já rendeu frutos inequívocos”, disse.
Bonner acredita que a dimensão do telejornal apenas amplifica o esforço de quem está por trás das câmeras. “O Jornal Nacional só vai tornar mais evidente o quanto a gente entrega, porque tem um alcance maior. Mas o Tralli não tem nada a aprender comigo. A gente tem que aprender com o que está à nossa volta o tempo todo”, destacou.
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Ele também falou sobre o trabalho coletivo que sustenta o noticiário mais assistido do país. “É uma atividade muito bacana. Você é o ponto final da fábrica. Você entrega para o público uma reportagem que foi o trabalho de 25, 40, às vezes 80 pessoas”, completou.
Horas antes de sua despedida, Bonner e Tralli se reuniram para uma entrevista conjunta ao O Globo, refletindo sobre o papel do telejornalismo em um tempo. Questionado sobre a neutralidade na apresentação, tema que volta e meia gera debate entre jornalistas, Bonner foi categórico ao defender a ‘tradição’ do Jornal Nacional.
“O Jornal Nacional é uma instituição tão forte que, no exercício de quase 26 anos de chefia, eu nunca vi os acionistas da empresa agirem como donos do Jornal Nacional. O JN, pela força que tem, por aquilo que representa, é algo tão forte que eu tenho a impressão de que os próprios acionistas da Globo entendem que ele seja um patrimônio dos brasileiros, do público brasileiro. Então, nesse sentido, você não faz o que quiser com o Jornal Nacional. Ele é muito grande para isso”, declarou.
Para o jornalista, a ‘isenção’ é um valor essencial da emissora e deve ser preservado. “Você não personifica a apresentação. O comentário é uma armadilha num jornal desse porte. Como escolher quais assuntos você vai comentar e quais não vai? Imagina se a gente fizesse no Jornal Nacional comentários sobre a operação policial desta semana”, questionou.
Bonner reforçou que o Jornal Nacional deve se manter fiel à legalidade e ao equilíbrio na informação. “O Jornal Nacional é um jornal legalista, como eu acho que o jornalismo tem que ser: humanista e legalista. Se a gente for fazer comentários no Jornal Nacional, estaremos impondo a milhões de brasileiros uma certa opinião, e nós achamos que esse não é o nosso papel”, explicou.
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Em seguida, ressaltou que a missão do programa é oferecer ‘subsídios’ para que o público forme ‘sua própria visão’. “Ao contrário, o nosso papel é municiar o espectador de opiniões de pessoas que estudam o caso, que têm visões sobre aquilo — e aí ele forma sua própria opinião. E isso não é uma teoria minha; eu herdei isso no JN. É a missão histórica do jornal”, completou.
Ao ser lembrado pelo próprio Jornal O Globo de situações como a pandemia, Bonner reconheceu que houve momentos em que o Jornal Nacional precisou adotar um ‘posicionamento institucional’. “Sim, sim. Mas aí, nessas ocasiões, o Jornal Nacional publicou editoriais. E esses editoriais manifestavam a posição do Grupo Globo a respeito dos assuntos ali abordados”, afirmou.
Ele lembrou ainda que, nesses casos, a emissora reforçou a defesa da democracia e do direito à saúde. “E, por fim, preciso citar também a condenação de tentativas de se romper a normalidade de uma democracia constitucional como a nossa. Eu me lembro de uma frase de um desses editoriais que afirmava o seguinte: ‘Quando o que está em jogo é o acesso ao direito da população à saúde e à democracia, não existem dois lados’.” (Foto: divulgação; Fonte: O Globo; UOL)

