A Polícia Federal identificou, no celular do banqueiro Daniel Vorcaro, mensagens enviadas a Alexandre de Moraes, no mesmo dia em que o empresário foi preso. A comunicação ocorreu poucas horas antes da tentativa de deixar o país.
De acordo com os registros analisados pelos investigadores, às 17h26 do dia 17 de novembro, Vorcaro enviou ao ministro uma mensagem pelo WhatsApp questionando: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”. Moraes respondeu em seguida, mas o teor da resposta não pôde ser recuperado.
Isso porque, logo após a resposta, aparecem três mensagens configuradas como visualização única — recurso que faz com que o conteúdo desapareça logo após ser lido. Esse tipo de mensagem impede a recuperação do texto posteriormente.
A troca foi localizada no aparelho do dono do Banco Master, detido pela PF na noite daquele mesmo dia, às 22h, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo. Segundo as investigações, ele se preparava para embarcar em um jato particular com destino a Dubai, com escala prevista em Malta.
Os peritos também encontraram indícios de um contato anterior entre os dois. Há um registro de diálogo datado de 1º de outubro de 2025, mas novamente sem o conteúdo das mensagens, pois elas foram apagadas ou enviadas no mesmo formato de visualização temporária. Além disso, investigadores afirmam ter identificado ligações telefônicas entre o banqueiro e o ministro.
Apesar disso, o ministro negou a existência das mensagens quando questionado pela equipe da coluna. Em nota enviada pela assessoria do Supremo ao jornal O Globo, ele afirmou:
“O Ministro Alexandre de Moraes não recebeu essas mensagens referidas na matéria. Trata-se de ilação mentirosa no sentido, novamente, de atacar o Supremo Tribunal Federal”.
Segundo a PF, quando enviou as mensagens ao ministro, o banqueiro já sabia que era alvo de um inquérito que investigava a venda de carteiras de crédito fraudulentas ao Banco de Brasília (BRB). O caso resultaria posteriormente em sua prisão e na liquidação do Banco Master.
Os investigadores afirmam ter reunido indícios de que Vorcaro teria descoberto a investigação ao acessar ilegalmente sistemas da própria Polícia Federal. Ele também teria consultado de maneira irregular dois procedimentos do Ministério Público relacionados às suspeitas de fraude.
A operação realizada nesta quarta-feira também revelou suspeitas de corrupção dentro do Banco Central. De acordo com a investigação, Vorcaro mantinha contato com dois chefes de supervisão da instituição — Paulo Sergio Souza e Belline Santana — que o informariam sobre monitoramentos realizados pela autarquia.
Ainda segundo os investigadores, os dois servidores teriam revisado documentos do banco e orientado o empresário sobre como agir em reuniões com o regulador. Souza, inclusive, assinou um documento do Banco Central que foi apresentado pela defesa de Vorcaro após a prisão. O ofício indicava que o banqueiro teria comunicado previamente à autarquia sua viagem a Dubai, que supostamente teria como objetivo negociar a venda do Banco Master para investidores árabes.
No mesmo dia em que enviou a mensagem ao ministro, afirmando ter feito “uma correria para salvar” e perguntando se seria possível “bloquear” a situação, o banco adotou duas estratégias emergenciais.
A primeira foi tentar impedir o cumprimento da ordem de prisão. Às 15h47, os advogados de Vorcaro enviaram por e-mail à 10ª Vara Federal de Brasília uma petição dirigida ao juiz Ricardo Leite, responsável pelo caso. No documento, a defesa se posicionava contra “medidas cautelares eventualmente requeridas”, alegando que poderiam causar “impacto relevante” e provocar “prejuízo irreversível a todo o conglomerado Master”.
O detalhe que chamou a atenção dos investigadores é que a ordem de prisão havia sido assinada apenas 18 minutos antes, às 15h29, decisão que teoricamente deveria ser conhecida apenas pelo gabinete do magistrado e pelas autoridades responsáveis pela investigação.
Para justificar como localizaram a vara responsável pelo caso, que corria sob sigilo, os advogados citaram uma reportagem publicada pelo site O Bastidor. A matéria informava onde a investigação tramitava.
Na representação que levou à segunda prisão de Vorcaro, os delegados incluíram mensagens trocadas entre o banqueiro, interlocutores e o editor do site, o jornalista Diego Escosteguy. Segundo a PF, as conversas indicariam que o jornalista teria “esquentado” informações obtidas de forma ilegal após receber pagamento para divulgar conteúdos de interesse do empresário.
Enquanto isso, outro movimento ocorria paralelamente. Na mesma segunda-feira, o Banco Master anunciou ao mercado a venda da instituição ao grupo Fictor, associado, segundo o comunicado, a investidores árabes.
O anúncio foi enviado a redações e investidores às 17h24. No comunicado, informava-se que o grupo pagaria cerca de R$ 3 bilhões pelo banco, em parceria com um consórcio estrangeiro. Entretanto, não foram divulgados detalhes do acordo nem a identidade dos investidores envolvidos.
A assessoria do grupo Fictor informou que essas informações seriam apresentadas na sexta-feira seguinte. O plano, porém, não se concretizou. Naquela mesma noite, Vorcaro foi preso no aeroporto.
No dia seguinte, o Banco Central decretou a liquidação do Banco Master. Na mesma data, a Polícia Federal deflagrou a primeira fase da Operação Compliance Zero.
De acordo com investigadores, mesmo com as tentativas de articulação e com a rede de contatos construída pelo banqueiro, os acontecimentos daquele 17 de novembro indicavam que a situação já estava definida. Na avaliação da PF, naquele momento já não havia mais possibilidade de “bloquear” o desfecho do caso. E mais: Dino suspende quebra de sigilo de Lulinha. Clique AQUI para ver. (Foto: STF; Fonte: O Globo)

