Embora a Casa Rosada insista que não existem condições atreladas ao pacote de ajuda oferecido pelos Estados Unidos, Javier Milei voltou de Nova York com recados claros.
Em Washington, o desejo é que a Argentina deixe de flertar com dois blocos de poder e assuma de vez o alinhamento com os norte-americanos — o que inclui rever a proximidade com a China, simbolizada pelo swap cambial mantido entre o Banco Central argentino e o Banco Popular chinês. A informação é do jornal argentino La Nacion.
No campo interno, os EUA querem ver Milei reconstruindo pontes políticas. “Foi a única coisa que ele me disse: ‘Trabalhem na governabilidade, Toto’”, contou o ministro da Economia, Luis Caputo, sobre a conversa com o secretário do Tesouro, Scott Bessent.
Segundo ele, reformas tributária, trabalhista e previdenciária estão prontas para avançar, mas só serão aprovadas se o governo conseguir maioria simples no Congresso.
Um assessor próximo ao presidente argentino admitiu ao veículo argentino que ainda não há uma “rota de trabalho” definida, mas garantiu que técnicos dos dois países começarão a discutir os mecanismos da cooperação.
Para os EUA, mais do que números de votação, interessa a capacidade do Executivo de formar alianças que garantam previsibilidade econômica, superávit fiscal e cumprimento dos compromissos com credores.
Na prática, Washington passa a monitorar de perto os desdobramentos internos da política argentina, somando-se à supervisão já exercida pelo Fundo Monetário Internacional. Kristalina Georgieva, diretora-gerente do FMI, reforçou o tom: “O que queremos é ver a Argentina mantendo o rumo em direção à estabilização macroeconômica e sustentando boas políticas por tempo suficiente para que se tornem irreversíveis”.
Antes da viagem, Milei e sua equipe já haviam preparado relatórios em inglês, a pedido de Washington, com projeções sobre a futura composição do Congresso e cenários eleitorais. O objetivo, segundo interlocutores, foi oferecer garantias de que o governo terá capacidade de sustentar o programa econômico.
O próprio Bessent, em entrevista à Fox Business, resumiu a visão americana: “Não acho que o mercado tenha perdido a confiança em Milei, acho que está olhando pelo retrovisor e vendo décadas, quase um século, de terrível má gestão argentina. Para ajudá-lo a chegar às eleições, não vamos permitir que um desequilíbrio no mercado provoque um retrocesso em suas substanciais reformas econômicas”.
Com elogios públicos ao presidente argentino e a promessa de apoio, os EUA deixam claro que querem contrapartidas políticas e estratégicas. E Milei, ao retornar a Buenos Aires, carrega o desafio de entregar exatamente isso. (Foto: divulgação; Fonte: La Naciona; O Globo)
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