Um dia após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciar uma tarifa de 50% sobre os produtos brasileiros, o impacto já se fez sentir no setor de pescados.
Nesta quinta-feira (10), cerca de mil toneladas de peixes deixaram de ser embarcadas com destino aos EUA, somando 58 contêineres refrigerados retidos em portos como Salvador (BA), Suape (PE) e Pecém (CE).
A informação foi confirmada pela Abipesca (Associação Brasileira das Indústrias de Pescados), que representa o segmento. Segundo o presidente da entidade, Eduardo Lobo Naslavsky, a paralisação foi determinada pelos próprios compradores americanos.
“A verdade é que o setor está desesperado, porque tudo parou nas exportações e isso vai se complicar ainda mais, se não houver uma solução urgente. A suspensão dos embarques partiu dos próprios compradores, porque ainda não sabem quanto pagarão pelos pescados”, declarou.
Naslavsky explicou que não houve cancelamento definitivo das compras, mas sim um congelamento das remessas, enquanto os importadores aguardam mais clareza sobre os custos que passarão a incidir com a nova alíquota. “A depender do valor, eles querem renegociar. Está colocado o impasse”, afirmou.
Com tempo médio de navegação entre 18 e 20 dias até os EUA, os embarques foram interrompidos para evitar prejuízos ainda maiores, já que o novo custo tornaria inviável a comercialização dos produtos ao chegarem ao destino. Atualmente, o setor de pescados movimenta aproximadamente R$ 20 bilhões ao ano, com exportações que somam US$ 600 milhões — sendo os EUA o principal comprador, com até 80% de participação.
Produtos como tilápia, lagosta e atum de profundidade são os mais afetados. A tilápia, por exemplo, tem 25% da produção destinada ao mercado externo, sendo 95% desse total comprado pelos americanos. No caso da lagosta e do atum, cerca de 90% da produção brasileira é exportada, quase totalmente para os Estados Unidos.
Eduardo Lobo pediu uma postura mais diplomática e racional do governo brasileiro nas negociações com os EUA. “O mercado americano é prioridade máxima.
O setor hoje clama para que o governo Lula tenha cautela, que vá para a mesa falando de economia e de números, que tire a politização da discussão e que peça ao governo americano 90 dias de adequação, que é o tempo suficiente para que a gente consiga escoar pelo menos o que está dentro de casa e que a gente consiga desacelerar toda a máquina de exportação com calma, para que os prejuízos sejam mitigados”, disse.
Segundo a Abipesca, a cadeia de exportação gera quase 6 mil empregos diretos nas indústrias e outros 38 mil postos indiretos, envolvendo desde pescadores artesanais até pequenos produtores da aquicultura. Sem o escoamento externo, o mercado interno não tem capacidade de absorver a produção redirecionada.
“O preço vai ficar inexequível, porque é um produto inelástico. Se eu tenho um produto que eu preciso vender por 50 e ofereço ele por 25, eu posso até ter uma reação do mercado no primeiro momento, mas eu não vou ter reposição, porque isso não se sustenta”, analisou Naslavsky. “Não gera possibilidade de nova captura. A conta não fecha. O Brasil fica inviabilizado para as exportações.”, disse à Folha.
Além do setor pesqueiro, outros ramos do agronegócio brasileiro também demonstram preocupação com a medida americana. Exportadores de suco de laranja alertam para um possível colapso — o Brasil é o maior fornecedor global, com 95% da produção destinada ao exterior e 42% desse volume indo para os EUA.
O setor de carnes também prevê prejuízos: a nova alíquota elevaria o preço da tonelada exportada de US$ 5.732 para US$ 8.600, inviabilizando a venda.
Já o setor cafeeiro teme reflexos significativos. Os Estados Unidos são os maiores compradores do café brasileiro: entre janeiro e maio de 2025, foram adquiridas 2,87 milhões de sacas, representando 17,1% do total exportado no período. (Foto: divulgação; Fonte: Folha de SP)
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