Uma investigação extensa realizada por pesquisadores da Universidade Mahidol, na Tailândia, revelou algo que até então não havia sido registrado na literatura médica: um tipo sanguíneo completamente novo.
O achado surgiu após a análise de 544 mil amostras coletadas ao longo de oito anos, trabalho detalhado em um estudo publicado na Transfusion and Apheresis Science. Entre centenas de milhares de exames, apenas três indivíduos apresentaram um padrão que chamou a atenção — uma variação raríssima do fenótipo B(A).
Curiosamente, identificar um novo tipo sanguíneo não era o objetivo primordial da pesquisa. A equipe buscava compreender por que, em alguns casos, a tipagem direta das hemácias e a tipagem reversa do soro entram em conflito, gerando discrepâncias nos testes do sistema ABO.
Quando esses resultados não coincidem, o risco para pacientes em transfusões aumenta de maneira significativa, tornando essas incompatibilidades um grande desafio para bancos de sangue e serviços hospitalares.
Ao longo do estudo, especialistas do Hospital Siriraj avaliaram 285.450 amostras de doadores e outras 258.780 de pacientes. Desse universo, apenas 396 amostras apresentaram algum tipo de divergência — o equivalente a 0,15% do total.
Após a eliminação de casos atribuídos a transplantes de células-tronco, restaram 198 exames com incompatibilidades genuínas. Dentro desse grupo extremamente reduzido, apenas um paciente mostrou o fenótipo B(A). Entre os doadores, as discrepâncias foram ainda mais raras (0,03%), e só duas pessoas carregavam a mesma característica.
O fenótipo B(A) é considerado uma anomalia muito incomum dentro do sistema ABO. Embora a tipagem básica classifique o indivíduo como do tipo B, algumas mutações no gene ABO fazem com que a enzima responsável por fixar antígenos nas hemácias apresente uma atividade semelhante à do tipo A — porém, em intensidade muito baixa.
Nos três casos identificados, os cientistas encontraram quatro mutações inéditas no gene ABO, nunca descritas anteriormente.
Essa combinação peculiar altera sutis mecanismos da enzima e confunde os testes convencionais, que podem falhar ao tentar detectar pequenas quantidades do antígeno A. Para médicos e laboratórios, isso acende um alerta: em situações excepcionais, a tipagem sanguínea padrão pode não ser suficiente, tornando análises genéticas essenciais quando há dúvidas.
Os autores do estudo ressaltam que a extrema raridade desse fenótipo não diminui sua relevância. Ao contrário, evidencia a complexidade do sistema sanguíneo humano, que vai muito além das oito categorias mais conhecidas — A, B, AB e O, nas versões positivas e negativas. Cada nova descoberta ajuda a prevenir riscos em transfusões, evitar incompatibilidades e aprimorar o atendimento em cenários clínicos mais sensíveis.
A novidade também reforça o fato de que o sistema ABO e o fator Rh representam apenas uma parte da diversidade já conhecida. Existem, atualmente, mais de 45 outros grupos sanguíneos que classificam o sangue a partir de diferentes combinações de antígenos. (continua)
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Nos últimos anos, outras descobertas notáveis ampliaram ainda mais esse repertório. Em 2024, cientistas resolveram um enigma de cinco décadas ao confirmar que uma amostra coletada em 1972 pertencia a um sistema de grupos sanguíneos totalmente novo.
Já em 2025, pesquisadores franceses identificaram o “Gwada-negativo”, considerado o tipo sanguíneo mais raro já encontrado: ele foi detectado em apenas uma única mulher da ilha de Guadalupe, a única pessoa no mundo compatível consigo mesma para uma transfusão.
Esses avanços mostram que a hematologia ainda guarda muitas perguntas sem resposta. Como apontam os autores do novo estudo, pesquisas futuras serão essenciais para explicar como as mutações recém-descobertas alteram a estrutura e o funcionamento da enzima responsável pela expressão dos antígenos no sistema ABO — e para revelar, possivelmente, outras variações ainda desconhecidas.

