Escritor revela qual seria a real taxa de desemprego no Brasil

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O índice oficial de desemprego divulgado pelo governo federal voltou ao centro do debate após a publicação de um artigo do escritor e PhD David Gertner no site Diário do Poder.

Na análise, o especialista sustenta que a taxa de 5,1%, celebrada como sinal de recuperação econômica, não reflete a realidade vivida por milhões de brasileiros fora do mercado formal de trabalho.

David Gertner nasceu no Brasil e é radicado há mais de trinta anos nos Estados Unidos. É professor aposentado, escritor e Ph.D. pela Northwestern University.

Conforme ele, o país enfrenta hoje um descompasso evidente entre os números oficiais e a percepção social. “O Brasil vive hoje um paradoxo estatístico. De um lado, o governo comemora uma taxa de desemprego de 5,1%, apresentada como prova inequívoca de sucesso econômico. De outro, a percepção social dominante é a de que o trabalho falta, os empregos são precários e milhões sobrevivem de bicos, auxílios ou desistiram simplesmente de procurar”, escreveu.

A partir dessa constatação, Gertner levanta um questionamento central sobre a real dimensão do problema. “A pergunta incômoda é inevitável: o desemprego no Brasil é mesmo de 5,1% — ou estamos diante de uma taxa real próxima de 16,6%?”, afirma o autor no artigo.

Segundo o especialista, a diferença entre os dois índices não é apenas uma divergência interpretativa, mas resultado direto da metodologia adotada para o cálculo.

Como mostra a coluna, a taxa oficial considera apenas a chamada força de trabalho, composta por quem está empregado ou por quem procurou emprego ativamente nas últimas semanas. Quem não se enquadra nesses critérios acaba excluído das estatísticas.

O escritor detalha os números utilizados nesse cálculo. “Hoje, os números aproximados são: cerca de 103 milhões de ocupados, cerca de 5,5 milhões de desocupados oficiais e uma força de trabalho de aproximadamente 108,5 milhões. Com esses dados, chega-se ao índice amplamente divulgado de 5,1% de desemprego.”

Na avaliação de Gertner, o resultado é tecnicamente defensável, mas distante da realidade social. “Tecnicamente correto. Socialmente enganoso.”

De acordo com o artigo, cerca de 15 milhões de brasileiros ficam fora da conta oficial por estarem classificados como ‘subutilizados’, ‘desalentados’ ou inseridos em trabalhos precários e informais.

Conforme o escritor, esse contingente vive sem estabilidade, renda suficiente ou proteção trabalhista, muitas vezes dependendo de auxílios governamentais ou trabalhos ocasionais, mas não aparece nos dados de desemprego.

Ao incluir esse grupo no cálculo, o cenário muda de forma significativa. “Se esses 15 milhões fossem considerados desempregados de fato, o cálculo mudaria radicalmente”, explica Gertner.

“Os desocupados reais saltariam para cerca de 20,5 milhões e a força de trabalho para aproximadamente 123,5 milhões.” Segundo o especialista, a aplicação da fórmula padrão levaria a um índice de aproximadamente 16,6% de desemprego.

O autor ressalta que o objetivo da análise não é substituir a taxa oficial, mas expor suas limitações. “É importante deixar claro que este exercício não propõe substituir a taxa oficial, mas sim evidenciar o quanto a metodologia vigente subestima a dimensão real da exclusão do mercado de trabalho no Brasil”, pontua.

Na comparação internacional, Gertner afirma que o Brasil apresenta distorções mais profundas do que países de renda semelhante. Conforme o artigo, em economias como México e Chile, a diferença entre desemprego oficial e subutilização é menor, o que indicaria mercados de trabalho mais capazes de absorver a mão de obra disponível.

No Brasil, segundo ele, o desemprego aparenta cair porque pessoas deixam de ser contabilizadas, não porque conquistam vagas formais.

O texto também aborda críticas direcionadas ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O escritor menciona relatos de servidores que apontariam pressões políticas e mudanças metodológicas seletivas.

“Nada disso invalida automaticamente os dados, mas corrói a confiança pública. Estatística oficial não pode servir para propaganda. Seu papel é iluminar a realidade — não maquiá-la”, escreveu.

Para Gertner, o cerne do problema não está apenas na técnica estatística, mas na dimensão ética da política pública. “O problema central não é técnico. É ético”, afirma. Segundo o especialista, ao excluir milhões de brasileiros das estatísticas, o governo melhora o discurso, mas deixa de enfrentar a precarização do trabalho e a exclusão estrutural do mercado formal.

Na conclusão do artigo, o escritor sintetiza sua crítica ao afirmar que, embora o índice de 5,1% possa ser válido dentro de um recorte específico, ele não representa a experiência cotidiana da população. “A taxa de 5,1% pode ser verdadeira dentro de um recorte específico. (Foto: IBGE; Fonte: Diário do Poder)

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