As recentes restrições impostas pela China à exportação de terras raras aprofundaram a tensão com o Japão e aceleraram a corrida global por fornecedores alternativos desses insumos estratégicos.
Antes mesmo da nova rodada de medidas adotadas por Pequim, Tóquio já vinha trabalhando nos bastidores para reduzir sua dependência do mercado chinês.
Na última terça-feira (6), o governo chinês proibiu a exportação de determinados elementos de terras raras e de outros produtos considerados sensíveis ao Japão.
Segundo Pequim, os itens poderiam ter uso militar, justificativa que reforçou o caráter estratégico e político da decisão.
A medida ocorreu após declarações recentes do governo japonês sobre Taiwan, tema central na política externa chinesa e considerado linha vermelha pelas autoridades do país. (continua)
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O episódio evidencia como a cadeia global de minerais críticos vem sendo usada como instrumento de pressão diplomática.
Atualmente, a China domina amplamente o setor de terras raras, não apenas na extração, mas principalmente nas etapas de refino e industrialização.
Dados da Agência Internacional de Energia indicam que 91% do refino mundial desses minerais é realizado por empresas chinesas.
O país também responde por cerca de 94% da produção global de ímãs permanentes, componentes essenciais para turbinas eólicas, veículos elétricos, equipamentos eletrônicos e sistemas de defesa.
Essa concentração torna economias avançadas altamente vulneráveis a decisões políticas de Pequim.
Diante desse cenário, o Japão intensificou a busca por parceiros capazes de oferecer estabilidade institucional, reservas conhecidas e ambiente favorável a investimentos de longo prazo.
O Brasil passou a ser visto como uma dessas alternativas, especialmente por sua diversidade geológica e por ainda ocupar posição secundária no mercado global de terras raras.
Dentro do país, o estado de Goiás ganhou protagonismo nas conversas com autoridades e investidores japoneses.
As negociações tiveram início no começo de 2025, quando o governador Ronaldo Caiado realizou uma viagem oficial ao Japão.
Na ocasião, Caiado se reuniu com representantes do governo japonês e com potenciais investidores interessados no setor mineral.
O objetivo foi apresentar o potencial geológico goiano e discutir possibilidades de cooperação na exploração de terras raras.
Em agosto de 2025, o governador voltou a tratar do tema ao se reunir com o então embaixador do Japão no Brasil, Teiji Hayashi.
O encontro reforçou a disposição das partes em avançar para um acordo de cooperação voltado ao desenvolvimento da cadeia produtiva desses minerais.
Durante as negociações, Caiado destacou que o interesse de Goiás vai além da simples extração do minério.
Segundo ele, qualquer parceria deverá incluir transferência de tecnologia e avanço para etapas de maior valor agregado.
A proposta envolve não apenas a mineração, mas também o processamento, o refino e, eventualmente, a industrialização dos insumos no próprio estado.
O governador afirmou ainda que o governo estadual tem capacidade de autorizar, em até três meses, o início de pesquisas ou a instalação de projetos na área.
A promessa de agilidade regulatória é vista como um diferencial em um setor marcado por processos longos e complexos.
Na prática, Goiás já abriga operações relevantes no segmento de terras raras.
Em Minaçu, no norte do estado, a mineradora Serra Verde realiza mineração e processamento desses minerais.
O projeto conta com investimentos bilionários provenientes dos Estados Unidos e de outros países ocidentais.
Além de Minaçu, municípios como Nova Roma e Catalão também concentram reservas significativas de terras raras.
A chamada Província Estanífera de Goiás é apontada por especialistas como uma das áreas com maior potencial ainda pouco explorado no país.
Para estruturar institucionalmente esse movimento, o governo estadual adotou medidas legais ao longo de 2025.
Entre elas, a criação da Autoridade Estadual de Minerais Críticos, sancionada por lei pelo governador.
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O novo órgão será responsável por formular políticas públicas voltadas à pesquisa, exploração, refino e industrialização desses minerais.
Também caberá à autoridade coordenar aspectos logísticos, de transporte e de comercialização dos produtos.
A legislação prevê ainda a criação de Zonas Especiais de Minerais Críticos.
Essas áreas estratégicas poderão receber incentivos econômicos, fiscais e creditícios, além de investimentos prioritários em infraestrutura.
O objetivo é reduzir gargalos logísticos e energéticos, considerados entraves históricos à competitividade do setor mineral brasileiro.
Outro instrumento criado pela lei é o Fundo Estadual de Desenvolvimento dos Minerais Críticos.
O fundo será destinado ao financiamento de projetos, pesquisas e iniciativas ligadas à cadeia produtiva desses insumos.
A movimentação de Goiás ocorre em um momento de reorganização das cadeias globais de suprimento.
Para o Japão, diversificar fornecedores de terras raras tornou-se questão de segurança nacional.
Para o Brasil, a oportunidade envolve não apenas atração de investimentos, mas também a possibilidade de ocupar posição estratégica em um mercado cada vez mais politizado.
O avanço dessas negociações tende a depender, nos próximos meses, da capacidade de alinhar interesses geopolíticos, exigências ambientais e retorno econômico de longo prazo. (Foto: reprodução; Fonte: CNN)

