As ruas de Katmandu amanheceram nesta quarta-feira (10) tomadas por tropas do Exército do Nepal. A presença militar veio depois de uma sequência de dias marcados por confrontos sangrentos, incêndios e depredações em meio a uma onda de revolta popular que abalou a capital e levou à renúncia do primeiro-ministro KP Sharma Oli.
A crise teve início na semana passada, quando o governo decidiu bloquear 26 plataformas digitais, entre elas Facebook, YouTube, LinkedIn e X (antigo Twitter), sob a justificativa de que as empresas não haviam se registrado junto às autoridades locais.
A medida, que afetou principalmente a população mais jovem — 43% dos nepaleses têm entre 15 e 43 anos —, gerou uma explosão de insatisfação em um país já desgastado por denúncias de corrupção.
Na segunda-feira (8), a repressão policial aos protestos deixou ao menos 19 mortos e centenas de feridos, segundo balanços parciais. Vídeos compartilhados no TikTok, rede que não foi bloqueada, intensificaram a indignação ao expor o contraste entre as dificuldades enfrentadas pela maioria da população e o estilo de vida luxuoso de filhos de políticos influentes.
Mesmo após a promessa de investigar os abusos policiais e o anúncio da suspensão do bloqueio às redes, a revolta se espalhou pelas ruas de Katmandu na terça-feira (9). Manifestantes incendiaram prédios públicos, depredaram residências de políticos e atearam fogo ao próprio Parlamento. A residência do então primeiro-ministro também foi atacada.
A tragédia ganhou contornos ainda mais graves com a morte de Rajyalaxmi Chitrakar, esposa do ex-premiê Jhalanath Khanal, que não resistiu às queimaduras sofridas depois que sua casa, em Dallu, foi tomada pelas chamas provocadas por grupos de manifestantes.
Diante do cenário, Oli, de 73 anos, anunciou sua saída do cargo. “Renuncio para que se possam tomar medidas visando uma solução política”, declarou. O presidente Ramchandra Paudel apelou à população e às lideranças políticas por diálogo e cooperação, pedindo uma saída pacífica para a crise.
De acordo com militares que ocupam as ruas, a situação permanece tensa, mas sob controle. “Esta manhã está tudo tranquilo, o Exército está em todas as ruas”, afirmou um soldado em barricada à AFP, sem se identificar por não ter autorização para falar com a imprensa.
A comunidade internacional reagiu com preocupação. A ONU pediu calma e condenou a violência, enquanto a vizinha Índia — parceiro estratégico de Katmandu — também fez um apelo por moderação.
A instabilidade política no Nepal, país de 30 milhões de habitantes encravado no Himalaia, não é novidade. Oli havia retornado ao poder em 2024 em meio a um cenário de disputas internas e crescente insatisfação social.
⏯️ Nesta terça (9/9), a capital do Nepal foi palco de manifestações intensas lideradas por jovens da chamada “Geração Z”, contra a corrupção no governo e a proposta de banir redes sociais como Facebook, WhatsApp, YouTube e X.
Os confrontos com a polícia deixaram 19 m0rtos e… pic.twitter.com/ulbxczPC6v
— Metrópoles (@Metropoles) September 9, 2025

