A fabricante de brinquedos Estrela apresentou à Justiça seu plano de recuperação judicial para tentar reorganizar uma dívida de R$ 109,17 milhões e manter as atividades da companhia. O documento foi protocolado em 14 de agosto na 1ª Vara Cível da Comarca de Três Pontas, em Minas Gerais, e envolve oito empresas ligadas ao grupo.
Entre as companhias incluídas no processo estão Estrela, Starcom, Starcom Nordeste, JM Comércio, Editora Estrela Cultural, Catu Comércio de Cosméticos, Brinquemolde e Manufatura de Brinquedos Estrela.
Já o banco Santander, a operadora Claro e o fundo B4 aparecem como terceiros interessados na ação.
A estratégia apresentada prevê diferentes mecanismos para levantar recursos e reorganizar as obrigações financeiras. Um deles é a possibilidade de venda de ativos por meio de uma Unidade Produtiva Isolada (UPI), modalidade que permite a transferência de determinados ativos sem que o comprador assuma as dívidas e responsabilidades da empresa que os vende.
O plano, porém, não especifica quais ativos poderiam ser colocados à venda nem estabelece um preço mínimo para a operação. A companhia também deixou aberta a possibilidade de realizar a negociação por meio de leilão ou de propostas fechadas.
Outra alternativa prevista é permitir que credores utilizem os próprios créditos para participar da compra dos ativos, sem sofrer o desconto que será aplicado a outras obrigações submetidas ao plano.
A Estrela também propõe ampliar os prazos para quitar os débitos. Segundo a companhia, a medida é necessária diante da “absoluta falta de capital para disponibilização imediata para pagamento dos créditos”. O projeto inclui ainda mudanças nos encargos financeiros dos financiamentos, numa tentativa de diminuir a pressão sobre o caixa.
Fundada em 1937 como uma pequena fabricante de bonecas de pano e carrinhos de madeira, a Estrela se tornou uma das marcas mais conhecidas do país e responsável por produtos que atravessaram gerações.
Entre os brinquedos associados à empresa estão o Banco Imobiliário, lançado em 1944, o jogo Detetive e a boneca Suzi, criada como uma versão brasileira da Barbie. As Fofoletes, vendidas em pequenas caixas semelhantes às de fósforos, também marcaram a história da companhia. No mesmo ano em que lançou o Banco Imobiliário, a empresa tornou-se uma das primeiras companhias brasileiras a abrir seu capital.
Apesar do pedido de recuperação judicial, a fabricante continua funcionando. O mecanismo tem justamente como objetivo permitir que empresas em dificuldades financeiras preservem suas operações enquanto negociam suas dívidas com os credores e tentam evitar a falência.
No plano apresentado ao Judiciário, a Estrela relata que precisou reduzir drasticamente seu quadro de funcionários para impedir uma interrupção completa das atividades. A força de trabalho, que chegou a cerca de 10 mil empregados, foi reduzida para aproximadamente 1.500.
“Medida extrema, porém indispensável à preservação mínima da atividade empresarial”, afirma o documento.
As demissões em massa também provocaram impacto sobre o caixa, devido ao pagamento das verbas trabalhistas. Ao mesmo tempo, a companhia acumulou dificuldades relacionadas ao pagamento de impostos e recorreu a programas de refinanciamento tributário, como o Refis, sem conseguir solucionar integralmente os problemas financeiros.
A empresa também aponta mudanças no comportamento das crianças como um dos fatores que alteraram o mercado. O avanço de plataformas digitais, jogos online e outras formas de entretenimento eletrônico passou a disputar diretamente a atenção do público infantil.
Outro obstáculo citado é a expansão de plataformas internacionais de comércio eletrônico, que, segundo a Estrela, aumentou a pressão competitiva sobre os fabricantes nacionais.
“A dinâmica concorrencial não atinge apenas o varejo tradicional”, diz o plano de recuperação judicial.
Em outro trecho, a companhia afirma que a concorrência estrangeira afeta toda a indústria nacional porque fabricantes brasileiros precisam arcar com custos trabalhistas, tributários, certificações, controle de qualidade, estrutura fabril, logística e distribuição.
“Ela compromete toda a cadeia produtiva nacional na medida em que o fabricante brasileiro, que suporta folha de pagamento, encargos trabalhistas, tributos, certificações obrigatórias, controle de qualidade, estrutura fabril, logística interna e canais formais de distribuição, passa a disputar mercado com mercadorias estrangeiras que alcançam o consumidor final sob estrutura de custo incomparavelmente inferior.”
A Estrela também relaciona sua situação financeira ao cenário de juros elevados no Brasil. A Selic, atualmente em 14% ao ano, encarece o crédito para empresas e consumidores e aumenta o custo de financiamentos. Para a companhia, esse ambiente reduz a capacidade de investimento das empresas e também afeta o poder de compra das famílias.
A fabricante deixou ainda de divulgar balanços trimestrais desde março de 2025, em meio ao agravamento das dificuldades financeiras. (Foto: reprodução; Fontes: Folha de SP; CNN)

