O mercado de trabalho, que há poucos anos vivia um cenário de intensa movimentação, entrou em uma espécie de pausa silenciosa — e sem prazo claro para terminar. A avaliação é do economista Nicholas Bloom, que vê um ambiente travado, marcado por cautela tanto de empresas quanto de trabalhadores.
Professor da Universidade de Stanford e conhecido por seus estudos sobre a chamada “Grande Demissão”, Bloom afirma que o momento atual é de contenção. Durante um seminário na Harvard Kennedy School, ele resumiu sua recomendação para quem está empregado de forma direta: “Não saia”.
Segundo o economista, o cenário atual é resultado de uma combinação pouco comum. De um lado, empresas estão demitindo pouco — em níveis historicamente baixos. De outro, também evitam contratar. Ao mesmo tempo, os trabalhadores reduziram drasticamente a troca de empregos, criando um efeito de paralisia no mercado.
Em mensagem enviada à revista Fortune, Bloom explicou que os profissionais estão “se agarrando ao emprego”, evitando riscos diante de um ambiente econômico mais incerto. Isso, somado à postura conservadora das empresas, ajuda a explicar por que o mercado parece congelado.
Para quem pensa em mudar de trabalho, o alerta é ainda mais enfático. “Aqueles que querem mudar de emprego devem garantir outro antes de deixar o atual. Você não quer sair de um emprego para descobrir que o que parecia fácil — conseguir outro — se tornou uma enorme dificuldade”, escreveu.
Incerteza global trava decisões
Na visão do economista, fatores externos têm papel decisivo nesse cenário. A Guerra no Irã, por exemplo, ampliou a instabilidade econômica e aumentou a cautela de empresas e investidores.
“Essa desaceleração do mercado de trabalho é impulsionada em grande parte pelo aumento da incerteza econômica e de políticas públicas, com medidas contra o comércio, imigração e guerras tornando as condições imprevisíveis”, afirmou. “Essa incerteza leva as empresas a desacelerar as contratações.”
Além do cenário geopolítico, o avanço da inteligência artificial também vem impactando diretamente o ritmo de contratações. Muitas empresas passaram a adiar a abertura de vagas enquanto avaliam o potencial da tecnologia para substituir ou otimizar funções.
O ambiente atual contrasta com o observado durante a chamada Grande Demissão, quando milhões de profissionais deixaram voluntariamente seus empregos em busca de melhores salários e condições. Em novembro de 2021, por exemplo, 4,5 milhões de pessoas pediram demissão — um recorde.
Naquele período, o próprio Bloom identificou tendências que ajudaram a explicar o fenômeno, como a expansão do trabalho remoto. Em estudos realizados posteriormente, ele apontou que modelos híbridos poderiam reduzir a rotatividade em até 35%, ao aumentar a satisfação dos funcionários.
Agora, porém, o movimento se inverteu. O que antes era um mercado dinâmico, com alta mobilidade, deu lugar a um ambiente marcado pela prudência.
A combinação de juros elevados, risco de inflação — impulsionado, entre outros fatores, pela possível alta do petróleo — e tensões internacionais cria um cenário em que contratar se torna uma decisão mais arriscada para as empresas.
“Contratar alguém é caro e, se depois você descobre, por exemplo, que a demanda é menor do que esperava, é difícil reverter. Então, quando há incerteza, você pausa”, explicou Bloom em entrevista à CNBC.
Para os trabalhadores, isso significa menos oportunidades e mais competição por vagas. E, nesse contexto, o conselho do economista ganha peso: em um mercado parado, sair de um emprego pode ser mais arriscado do que nunca. (Foto: reprodução; Fonte: InfoMoney)

