O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, oficializou nesta quarta-feira (15) a aplicação de uma tarifa de 25% sobre a maior parte dos produtos brasileiros exportados ao mercado americano. A decisão segue a recomendação do Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) e encerra a investigação conduzida com base na Seção 301 da Lei de Comércio americana, aberta em julho do ano passado.
Apesar da sobretaxa, o governo dos Estados Unidos manteve uma extensa lista de exceções. Cerca de 2.100 produtos brasileiros permanecerão livres da tarifa, incluindo itens estratégicos para as exportações nacionais, como carne bovina, café, laranja, suco de laranja e componentes destinados à fabricação de aeronaves.
Após receber manifestações de empresas e entidades durante audiências públicas realizadas na semana passada, o governo americano decidiu ampliar a relação de produtos isentos.
Entre os novos itens incluídos estão ferro-gusa, café solúvel sem aromatizantes, mel orgânico, hidróxido de alumínio, sucata de ferro e aço, determinados pescados, couros, alguns produtos de madeira, medicamentos, insumos farmacêuticos, antiguidades, obras de arte e roupas usadas.
Segundo o USTR, esses produtos foram preservados porque são considerados importantes para a indústria dos Estados Unidos, possuem baixa oferta doméstica ou são difíceis de substituir por fornecedores de outros países. Na avaliação do órgão, taxá-los poderia elevar custos de produção e prejudicar cadeias industriais americanas.
Pedidos de isenção foram negados: Nem todos os setores conseguiram escapar da nova tarifa. O governo dos EUA rejeitou pedidos apresentados por segmentos como máquinas agrícolas e industriais, calçados, vestuário, equipamentos elétricos, ferramentas de jardinagem, papel, açúcar orgânico e diversos produtos manufaturados.
Embora empresas tenham argumentado que a substituição dos fornecedores brasileiros elevaria custos, o USTR concluiu que esses produtos podem ser adquiridos em outros mercados ou que os impactos econômicos não justificam uma exceção.
A agência também retirou da lista de isentos a celulose de alta pureza, após analisar manifestações que apontavam supostos benefícios obtidos por produtores brasileiros em razão de práticas ligadas ao desmatamento ilegal.
Motivos apontados pelos EUA: A investigação americana analisou diferentes pontos de atrito comercial entre os dois países.
Entre eles estão as tarifas brasileiras sobre o etanol importado, alegações de tratamento favorecido ao Pix em relação às empresas americanas de meios de pagamento, além de críticas ao ambiente regulatório brasileiro para empresas de tecnologia.
Segundo o governo americano, decisões judiciais brasileiras determinaram, de forma sigilosa, que plataformas dos Estados Unidos removessem determinados conteúdos políticos, prevendo multas elevadas e até a possibilidade de interrupção das atividades dessas empresas em caso de descumprimento.
No caso do Pix, o relatório sustenta que o Banco Central teria favorecido o sistema nacional de pagamentos em detrimento de concorrentes privados internacionais. O governo Lula nega essa interpretação.
Outro ponto citado pelos Estados Unidos é o tratamento tarifário preferencial concedido pelo Brasil a países como Índia e México, benefício que, segundo Washington, não é estendido aos produtos americanos.
Além disso, o Brasil permanece na chamada lista de observação do relatório Special 301, documento elaborado pelos EUA que reúne países considerados deficientes na proteção à propriedade intelectual.
Marco Rubio critica Lula: Após o anúncio das tarifas, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, responsabilizou diretamente Luiz Inácio Lula da Silva pelo agravamento das relações comerciais entre os dois países.
Em publicação nas redes sociais, Rubio afirmou que o governo brasileiro conduziu as negociações sem transparência e declarou que Lula teria colocado interesses pessoais acima da possibilidade de alcançar um acordo comercial. Segundo o secretário, a decisão anunciada por Trump decorre da falta de avanços nas negociações ao longo do último ano.
Today, President Trump directed USTR to impose a 25% tariff on most Brazilian imports. Let there be no confusion about why: President Lula and his government have not negotiated with the US in good faith.
His economic policies are bad for Americans and bad for Brazilians. For…
— Secretary Marco Rubio (@SecRubio) July 16, 2026
Governo petista anuncia reação: Na madrugada desta quinta-feira (16), o governo Lula informou que pretende recorrer aos mecanismos previstos na Lei da Reciprocidade Econômica para responder às medidas adotadas pelos Estados Unidos.
Autoridades americanas, no entanto, afirmaram que os canais diplomáticos permanecem abertos para negociações e advertiram que uma eventual retaliação brasileira poderá levar Washington a reavaliar sua postura.
Impacto econômico: As novas tarifas passam a valer em 22 de julho e atingem setores com forte dependência do mercado americano.
Representantes das indústrias de ferro-gusa, madeira processada e calçados já haviam alertado que a medida poderá provocar redução da produção, queda nas exportações e fechamento de postos de trabalho.
Com a decisão, o Brasil passa a ocupar a segunda posição entre os países mais tarifados pelos Estados Unidos, atrás apenas da China, segundo levantamento da Global Trade Alert citado pela BBC News. Antes da nova medida, o país ocupava o 13º lugar nesse ranking.
Diante do novo cenário, a expectativa é de que o governo brasileiro mantenha programas de apoio às empresas exportadoras, como o Brasil Soberano, criado para reduzir os impactos das barreiras comerciais impostas pelos Estados Unidos e posteriormente ampliado para atender empresas afetadas por outras crises internacionais. (Foto: Palácio do Planalto; Fonte: Folha de SP)

