A Polícia Federal investiga uma possível articulação entre Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, o empresário Antônio Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, e a lobista Roberta Luchsinger. A reportagem é da Folha de SP.
Segundo os investigadores, o grupo teria mantido tratativas para viabilizar pelo menos três negócios no Ministério da Saúde, envolvendo medicamentos à base de cannabis, testes para diagnóstico de dengue e outras arboviroses e projetos de parceria com a Indústria Química do Estado de Goiás (Iquego).
Nenhuma das negociações chegou a ser efetivada. Ainda assim, a PF afirma haver indícios de que Lulinha e Roberta mantinham uma “comunhão de interesses econômicos” e sustenta que o filho de Lula teria sido beneficiário indireto da atuação da lobista.
### Negócio com canabidiol
Uma das principais frentes investigadas envolve a tentativa de centralizar no Ministério da Saúde a aquisição de medicamentos à base de cannabis para pacientes que obtiveram acesso aos tratamentos por meio de decisões judiciais.
De acordo com a investigação, Roberta e Careca do INSS teriam estreitado a relação em fevereiro de 2024. No mês seguinte, os dois se reuniram com Swedenberger Barbosa, que ocupava o cargo de secretário-executivo do Ministério da Saúde.
Segundo pessoas que acompanharam a reunião, Roberta e Careca apresentaram uma proposta para regularizar produtos derivados de cannabis e viabilizar sua comercialização no país. Swedenberger teria informado que a regulamentação do assunto competia à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Em maio daquele ano, Roberta teria encaminhado a Marco Aurélio Ribeiro, conhecido como Marcola e ex-chefe de gabinete de Lula, versões preliminares de documentos relacionados ao projeto. Ele afirmou à PF que não levou o material ao Ministério da Saúde.
A polícia também relata que Roberta dizia representar Lulinha e utilizava a expressão “Eu sou o Fábio” durante as tratativas. A lobista teria previsto uma remuneração de 20% sobre os negócios.
A proposta previa o fornecimento de aproximadamente 1,2 milhão de frascos por quatro empresas, entre elas a WorldCann, ligada ao Careca do INSS. O valor estimado do negócio seria de R$ 627 milhões.
Duas pessoas que acompanharam as discussões, uma ligada ao setor privado e outra com atuação técnica no governo, consideraram o projeto inviável.
A ideia seria fazer com que o governo federal concentrasse as compras destinadas a pacientes de todo o país que obtivessem autorização judicial para receber o tratamento. Atualmente, estados e municípios também realizam esse tipo de aquisição.
Os valores envolvidos na proposta também chamaram a atenção. Segundo os dados citados na investigação, o Ministério da Saúde desembolsa aproximadamente R$ 5 milhões por ano com compras de canabidiol ou depósitos judiciais relacionados a esses tratamentos. Em São Paulo, por exemplo, os gastos estaduais com o produto chegaram a R$ 25,6 milhões entre janeiro e outubro de 2023.
### Testes de dengue
Outra frente mencionada pela PF envolve a possível comercialização de testes rápidos para dengue e outras doenças transmitidas por mosquitos.
Segundo informações divulgadas pela revista Veja, a proposta poderia resultar em um contrato de aproximadamente R$ 1 bilhão por meio de uma empresa importadora sediada em Santana de Parnaíba, na Grande São Paulo.
Pessoas que atuam no mercado de produtos para diagnóstico e acompanham processos de compra do Ministério da Saúde consideraram o valor incompatível com o padrão das aquisições públicas.
Como comparação, o orçamento disponível em 2026 para a compra de insumos destinados à prevenção e ao controle de diferentes doenças é de aproximadamente R$ 700 milhões.
Além disso, a União frequentemente transfere recursos para governos estaduais e prefeituras para que parte dessas compras seja realizada localmente, em vez de concentrar todos os exames diretamente no Ministério da Saúde.
### Tratativas com laboratório de Goiás
A terceira frente identificada pelos investigadores envolve possíveis parcerias produtivas com a Iquego, laboratório público vinculado ao governo de Goiás.
Mensagens atribuídas a Roberta e Careca indicariam que eles discutiam maneiras de fazer com que o Ministério da Saúde aprovasse propostas envolvendo a instituição. Os documentos analisados pela Folha, porém, não esclarecem quais produtos ou projetos específicos seriam objeto das parcerias.
Relatório de gestão da instituição referente a 2025 informa que pelo menos 25 projetos foram apresentados nos últimos anos para a produção de medicamentos e suplementos por meio de transferência de tecnologia de empresas privadas. Todos, segundo o documento, acabaram rejeitados pela área técnica do Ministério da Saúde.
### Despesas pagas para ex-assessor de Lula
Outro elemento mencionado pelos investigadores envolve Marco Aurélio Ribeiro, o Marcola. Segundo a PF, Roberta teria arcado com aproximadamente R$ 217 mil em faturas de cartão de crédito e outras despesas do ex-chefe de gabinete de Lula durante 2024.
O período coincide com as tratativas relacionadas à venda de canabidiol e dos testes de diagnóstico.
A investigação também cita uma reunião realizada por Roberta no Ministério da Saúde, em outubro de 2023, com representantes da Duosystem, empresa especializada em sistemas para gestão de leitos e teleconsultas. O encontro, porém, ocorreu antes da aproximação entre a lobista e o Careca do INSS, e a empresa não chegou a firmar contratos com o governo.
A PF apura se as diferentes iniciativas faziam parte de uma atuação coordenada para abrir espaço comercial no Ministério da Saúde e se Lulinha teria obtido algum benefício indireto dessas articulações. (Foto: reprodução; Fonte: Folha de SP)
